Meus cabelos brancos surgiram suavemente, fio a fio, ainda na juventude. Meu pai teve cabelos brancos muito cedo; já minha mãe, mesmo com 90 anos, no máximo, atingiu um tom grisalho leve — se é que isso existe (hehehe). O fato de eu ser a caçula da casa e de minha mãe nunca ter tido uma cabeleira branca fez com que eu sempre disfarçasse os fios que iam aparecendo e, mais tarde, praticamente todos eles.
Em 2015, quando minha mãe fez sua passagem, decidi que era hora de assumir minha onda prateada. Com essa decisão veio uma época de liberdade, acompanhada, lógico, de inúmeros comentários: desde os que me parabenizaram pela coragem até os que acharam que, do dia para a noite, aos 51, eu tivesse completado 80 anos.
Enfim, após dez anos, não é sobre querer parecer velha nem jovem, mas sobre me reconhecer — em cada mecha prateada.
É descobrir que o branco pode ser bonito, natural, tão meu quanto o riso, as rugas, as cicatrizes. É desafiar expectativas: muitos insistem que devamos esconder o tempo, que “não parece certo” para uma mulher. Mas quebrar esse padrão é também um ato político. É afirmar que envelhecer — visivelmente — é legítimo. Que meus cabelos, que marcam os anos, não me definem por fora, mas narram quem eu sou, de verdade. Afinal, liberdade também é deixar o cabelo contar sua história.
Que bom que muitas mulheres estão aderindo a essa característica natural do envelhecimento — mas poderiam ser mais. Sei que inspirei algumas mulheres ao longo desse período, mas essa onda já poderia ser muito maior. É um processo libertador, embora haja resistência: não são apenas mulheres, mas também homens que têm dificuldade em aceitar. Aquelas que optam por assumir os fios brancos tendem a se relacionar mais com uma vida natural, com bem-estar. É uma forma clara de ativismo.
E neste Natal, encarar meus fios brancos é também um presente que escolho oferecer — a mim e a quem caminha comigo. Um presente de verdade, de inteireza, de aceitação do tempo como aliado e não como inimigo. Que 2026 seja um ano de estabelecer novos padrões: menos disfarces, menos medo de envelhecer, mais coragem para existir como se é. Que possamos ampliar essa onda prateada, transformando o que antes era visto como limite em liberdade, e fazendo do corpo — com suas marcas e histórias — um território legítimo de expressão, escolha e beleza.




















